E eu que já bebi todo o pó de café da minha casa, espero
ansioso uma ligação sua para aplacar a minha necessidade. Ok , é claro que eu
sei que nunca mais o meu celular irá receber as suas ligações no meio de uma
madrugada fria apenas me desejando bons sonhos, nunca mais receberei sms quando
estiver em uma reunião importante do trabalho onde todos os acionistas irão me
olhar de cara feia pelo toque bobo que tem meu celular. Mas ainda assim eu
espero.
Hoje faz cinco anos que tudo aconteceu, pensando bem eu não sei
o que exatamente ocorreu entre nós, química, comunhão de almas, amor, seja lá a
porra que chamem foi isso mesmo. Foi em uma madrugada como esta, fria,
desalmada em que eu estava na frente do meu PC jogando na grande rede um jogo
qualquer, quando recebo um convite para participar da mesma guild que você
comandava. Pedido aceito e por várias noites nossos avatares lutaram juntos
batalhas monstruosas, no jogo a nossa vida não poderia ser melhor.
Tudo fluía,
era como se tivéssemos construído juntos os avatares.
Engulo agora mais uma xícara de café tentando dissipar
algumas de minhas lágrimas, o pior de perder um grande amigo vem com o tempo
quando tudo o que foi vivido parece distante, é quando a dor diminui e a ferida
cicatriza.
Naquele tempo foi eufórico descobrir num bate-papo rápido
dentro do jogo que você morava a uma quadra daqui, quem diria que a pessoa com
quem eu mais conversava estava às portas de minha casa e eu não sabia.
Sim eu sempre fui retraído, não por ser tímido, mas sempre
gostei mais do meu silêncio e da minha solidão ao barulho do mundo, na minha
realidade eu podia ser quem eu quisesse, lá fora eu só podia ser eu mesmo.
Tivemos nossas longas noites conversando, agora já não mais através
do jogo que nos uniu, mas pessoalmente, acompanhadas de muitas xícaras de café,
outra de nossas coisas incomum.
Naquela época o calor da xícara aqueceu meu corpo e sua voz
rouca e macia agradaram meu coração. Hoje, o café me faz companhia e lembrança
de sua voz alimenta a minha solidão.
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